Santa Teresa D’Ávila e São João da Cruz: caminhantes dos caminhos estreitos que buscam a perfeição
Santa Teresa D’Ávila e São João da Cruz: caminhantes dos caminhos estreitos que buscam a perfeição
Profª Me Stela Maris Leite Carrinho de Araújo
Rodolfo Macedo Graduando em Letras
UNIFATEA – Centro Acadêmico Teresa D´Ávila – Lorena São Paulo
Resumo: O presente texto pretende traçar caminhos que se cruzam na vida espiritual, literária e seus contextos de duas figuras místicas e doutores da Igreja Católica: São João da Cruz e Santa Teresa D'Ávila. Aborda os caminhos percorridos na vida desses místicos, principalmente, pontuando seus espaços de formação, retratando aspectos da escola como espaço de formação da igreja e seus membros, enfático em São João da Cruz. O texto compõe-se de três segmentos: O primeiro expressa os caminhos de São João da Cruz e Santa Teresa, seus primeiros passos na busca da santidade; o segundo enfoca São João da Cruz e aspectos de sua vida sofrida e determinada e o momento em que seu caminho se cruza com o de Santa Teresa, quando juntos, transformam o Carmelo; o terceiro segmento descreve a experiências místicas de São João da Cruz e seus escritos com cunho pedagógico para busca da perfeição como o fez Santa Teresa D' Ávila.
Abstract: The present text intends to trace paths that cross in the spiritual, literary life and its contexts of two mystical figures and doctors of the Catholic Church: São João da Cruz and Santa Teresa D'Ávila. It addresses the paths followed in the life of these mystics, especially, punctuating their spaces of formation, portraying aspects of the school as a space of formation of the church and its members, emphatic in São João da Cruz. The text is composed of three segments: The first one expresses the paths of São João da Cruz and Santa Theresa, his first steps in the search for holiness; the second focuses on São João da Cruz and aspects of his hard and determined life and the moment when his way crosses with that of Santa Teresa, when together, transform the Carmel; the third segment describes the mystical experiences of São João da Cruz and his writings with a pedagogical aim to search for perfection as Santa Teresa D 'Ávila did.
Palavras-chave: Santa Teresa D'Ávila; São João da Cruz; humanismo; escola no século XVI; mística católica; pedagogia mística.
Keywords: Santa Teresa D'Ávila; São João da Cruz; humanism; school in the sixteenth century, Catholic mysticism, mystical pedagogy.
1. Os primeiros passos
Diante de duas figuras tão instigantes, seria imprudente apenas traçar uma linha do tempo com pontos de intercessão na caminhada entre esses seres. Pessoas que são definidas como almas inquietas que não relutaram caminhar por caminhos estreitos, buscando a perfeição para comunhão plena com Deus.
Santa Teresa (1515-1582) era mais velha que São João da Cruz (1542- 1591) e já iniciara a caminhada da reforma no Carmelo. Tarefa tão difícil e edificante. Toda mudança necessita iniciar-se pelas pessoas de espírito forte. Ambos tinham essa determinada determinação, frase tantas vezes pronunciada por Santa Teresa. Quem foi o jovem que caminhou com Santa Teresa em seus caminhos estreitos?
São João da Cruz, nasceu em 1542, em Fontiveros (Ávila). Recebeu formação elementar no Colégio dos Doctrinos, na cidade de Medina Del Campo, na Espanha, entre 1551-1559. No Colégio dos Jesuítas, na mesma cidade, entre 1559-1563, estudou humanidades; seus estudos universitários foram desenvolvidos na Universidade de Salamanca, entre 1564-1568 (Da Cruz, 2002).
Impossível furtar-se a discorrer sobre o contexto de formação de São João da Cruz e de sua vida sofrida, que certamente forjaram seu caráter e fé. É pertinente descrever como era a diretriz de formação de um colégio elementar na segunda metade do século XVI.
A história pontua que, ao final da chamada idade das trevas, a Idade Média, os estudos afeitos à escola possuíam marcas de aprendizagem consideradas de excelência. As demandas pedagógicas da época eram desenvolver métodos de raciocínio e de habilidades para o trabalho necessários à sociedade. A escola não era para todos, mas era um espaço que possibilitava o contato com o outro, espaço de sociabilidade e de descobertas. Os responsáveis pela educação preocupavam-se, principalmente, como os pequenos deveriam se comportar socialmente, forjando assim traços de personalidade que atendiam às demandas sociais.
Os colégios elementares, surgiram no século XIV. As elites e toda classe dirigente voltavam esforços para o ensino elementar. Eram as cidades que se responsabilizavam pelo pagamento e moradia dos professores. Os alunos eram ensinados com a leitura e escrita de pequenas narrativas como fábulas, provérbios e poemas. A escola elementar também desenvolvia a educação religiosa. O catecismo e histórias com fundo moral eram subsídios importantes. Tais práticas pedagógicas eram comuns no final da Idade Média (Verger, 1999).
Os objetivos de formação visavam ao bom conviver e ao funcionamento adequado das cidades, eivados da ideologia da época. É mister ressaltar que a frequência à escola era restrita à elite. Essa elite eram os apadrinhados pela igreja, a aristocracia e parte da burguesia ascendente.
Os religiosos, paulatinamente, ocuparam-se dos estudos das primeiras letras, auferindo às escolas elementares muita importância. Algumas ordens ocuparam-se dessas escolas. Ordens consideradas mendicantes dedicaram-se a essa tarefa. São ordens cuja sobrevivência, dependem de esmolas e dádivas dos outros, compostas daqueles que renunciam à posse de quaisquer bens, comprometendo-se em viver, radicalmente, na pobreza e na humildade. Assumiram, neste contexto, escolas elementares eclesiásticas que tiveram um papel fundamental na formação das primeiras letras em toda a Europa. (Verger, 1999). Além disso, é ainda permitido às Ordens Mendicantes o direito de mendigar nos locais públicos, origem do nome dessas ordens.
Estas ordens exercem atividades de caridade e pastorais e seus frades dedicam-se também à pregação itinerante, nos meios urbanos, preferencialmente. Estas Ordens organizam-se fortemente de forma hierárquica e tinham o privilégio da isenção, pois o papa libertava a comunidade religiosa da jurisdição do bispo diocesano, colocando-as sob a competência do Vaticano.
É interessante elencarmos essas ordens para entendermos, principalmente, os embates vividos com as hierarquias religiosas estabelecidas por Santa Teresa D’Ávila e São João da Cruz.
As Ordens Mendicantes existentes compreendem os Dominicanos, os Franciscanos - os mais numerosos, divididos em vários ramos: Frades Menores, Conventuais, Capuchinhos, Terciários, os Agostinhos - Eremitas, Descalços e Recoletos - e os Carmelitas - Calçados, ou da Antiga Observância, e Descalços, ou da Observância Reformada;, os Servitas, os Mínimos, os Hospitalários de S. João de Deus, os Mercedários, os Trinitários e a Ordem Teutónica, além dos ramos femininos de alguns destes institutos religiosos.
As origens dessas Ordens iniciam-se no século XII, momento de extrema ebulição social e espiritual. Muitos visionários, personalidades conhecidas e cultuadas até hoje, fundaram comunidades que se indispõem com as autoridades em geral, sejam essas civis, ou religiosas. Num primeiro momento esses inspirados marginalizam-se socialmente. Muitos exemplos podem ser citados como os Valdenses ou dos Cátaros (ou Albigenses), no sul de França. Domingos de Guzmão, que se tornou S. Domingos, foi cônego da catedral de Osma, em Castela, na Espanha, a convite do então Papa Inocêncio III, em 1205, acompanhará o seu bispo, Diego, na evangelização dos hereges do Languedoc (sul de França), por meio de pregação e do exemplo de uma vida sem pecado. Um dos seus primeiros atos foi a criação de uma comunidade feminina em Prouille, na diocese de Toulouse.
Em 1215, o bispo desta cidade encarregou Domingos de pregar contra os Cátaros na região, depois do seu sucesso em Montpellier. Domingos foi o precursor de uma comunidade de missionários, uma Ordem dos Pregadores, ou Dominicanos, autorizada pelo papa Honório III em 1216.
Em 1209, Francisco, um jovem de família de mercadores de Assis, na Itália Central, renuncia aos bens materiais de sua vida, motivado nos ideais de cavalaria, decide dedicar-se a uma existência de acordo com os valores do Evangelho. Ele também funda uma Ordem, um pouco a seu contragosto, a que chamará de Frades Menores (ou "irmãos pequeninos"), aprovada pelo papa Inocêncio III em 1210, embora a regra definitiva só em 1223 tenha sido aprovada. Estas primeiras Ordens Mendicantes, quase simultâneas, são logo seguidas de duas outras no século XIII: os Eremitas de Sto. Agostinho (1243) e os Carmelitas (1234-1247).
Característica marcante dessas Ordens Mendicantes é o fato de não acentuarem a contemplação e a liturgia na sua vida religiosa, privilegiam a vontade de imitar Cristo, tendo uma atitude mais social e ativa. Assim, podemos salientar as questões tão práticas e transformadoras vivenciadas por Santa Tersa D’Ávila. Essas ações, no âmbito dos conventos, já reformados, certamente resulta em acolhida popular. Esta popularidade, consequentemente, causou certa irritabilidade do clero secular e dos bispos, gerando hostilidade destes em relação a essas ordens. O clero via com maus olhos os frades mendicantes, pois avaliavam que as Ordens Mendicantes estavam invadindo seus domínios, diminuindo algumas fontes de rendimentos às igrejas das paróquias. Interessante pontuar que os frades das ordens Mendicantes foram assumindo atividades em colégios e universidades, gerando, também, conflitos com os professores leigos titulares de certas cadeiras. Em 1253, os franciscanos e os dominicanos recusaram-se a participar numa greve organizada pelos estudantes e corpo docente da Universidade de Paris, a mais importante daquele tempo”. (Ordens Mendicantes in Artigos de apoio Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003 - 2016). Este fato gerou conflito, tendo de um lado os papas apoiando os frades contra os bispos e a universidade. Em 1300, o Papa Bonifácio VIII, limitou os privilégios dos Mendicantes.
Isto posto, podemos afirmar que, na Idade Média, as Ordens Mendicantes vivenciaram um período de florescimento significativo, com relevância social, cultural e política. Com o Concílio de Trento (1545-1563) as Ordens Mendicantes mantem segmentos que assumem a pobreza absoluta, às outras é facultada a possibilidade de aquisição de bens comuns, o que implica não viver exclusivamente da caridade pública.
As Ordens Mendicantes sobressaíam-se com relevância apostólica e evangelizadora, pois a Contrarreforma exigia das congregações empenho das instituições católicas. Tinham que desenvolver postura missionária para atender as demandas dos impérios coloniais que se impunham no século XVI. Essas demandas geravam a necessária aquisição de bens comuns que pudessem gerar receita para sustentar os objetivos missionários. Ainda assim, continuam a mendigar dentro da própria diocese. Os Mendicantes, em sua origem, eram itinerantes, mas, paulatinamente, foram fundando conventos como pontos centrais que irradiavam as atividades de apostolado, pastorais e ações de caridade às comunidades de seu entorno.
Com a Revolução Francesa houve severa diminuição de províncias que eram vulneráveis aos objetivos de projetos nacionais de laicização das instituições. As Ordens Mendicantes estabeleceram-se em todo o mundo, desenvolvendo ações missionárias e pastorais, educacionais e científicas de relevância incontestável. Apresentam-se e são consideradas como pilares da igreja católica, atualmente, um inigualável número de santos e beatos, sendo alguns deles amplamente conhecidos e cultuados, como S. Francisco, Sto. António, S. Domingos e Santa Teresa de Ávila.
Essas escolas localizavam-se na cidade e também na zona rural e apresentavam características diversas, desenvolvendo atividades de formação conforme o carisma de cada ordem. Existiam há tempos e foram mantidas por esses religiosos com intuito inicial de preparar seus iniciantes. Após o século XV, mais jovens das cidades passaram a frequentar as escolas das Ordens Mendicantes. Neste contexto, faz-se necessário ressaltar, o pensamento de São João da Cruz por ser muito representativo na Espanha.
São João da Cruz traz novos ideais pedagógicos de inspiração humanista, que podem ser considerados como contributos muito importantes para o desenvolvimento da educação e das bases da pedagogia na modernidade.
Na medida em que eram edificados novos conventos dos Carmelitas Descalços nas cidades, São João da Cruz teve o propósito de que esses espaços vivessem novos ideais pedagógicos humanistas.
O Humanismo Renascentista ressalta a importância do homem, sua dignidade e o considera um ser privilegiado no mundo. Neste sentido, os conventos das Ordens Mendicantes foram iniciadores de um trabalho educativo desenvolvido nas escolas elementares, pois atendiam jovens das camadas populares, incentivando o ensino em língua vernácula, da escrita e da leitura.
Renascimento e o Humanismo podem ser definidos de forma única, tendo em vista que as denominações expressam uma época que visava à busca de respostas às necessidades humanas quanto ao contexto histórico no que se refere à economia, à política, à organização social, à cultura e principalmente às necessidades educacionais. (Manacorda, 1992; Cambi, 1997).
A ascensão da burguesia e a formação dos Estados Nacionais são fruto dessa busca, tornando a cidade o centro das relações sociais. As pessoas não mais trabalhavam apenas para sobreviver, mas pelo o status trazido pelo poder econômico e para o aumento de riquezas.
O modo de ler o mundo com o pensamento Renascentista vivenciado nas escolas e universidades transformou a intelectualidade. Houve o ressurgimento do saber e da estética clássicas. Essa influência renascentista trazia marcadamente, principalmente no norte europeu, as ideias humanistas com forte cunho religioso de Erasmo de Roterdã (1466? - 1536) e seus objetivos de reforma da igreja para que esta ficasse livre de seus desvios. Pode se afirmar que a semente do direito universal à educação, mantidas pelo poder público, com gratuidade, começaram a germinar neste período. (Arnaut de Toledo, 1999).
As profundas transformações no modo de vida social e cultural, mais que pelo lado educativo influenciaram outros reformadores como Martinho Lutero (1483-1546). A ruptura da Igreja Católica trouxe motivação no âmago da Igreja, notadamente, com Concílio de Trento (1546-1563), gerando a expansão das Ordens Religiosas, principalmente das Ordens Mendicantes. A reforma da Igreja Católica pressupunha novas posturas e normas eclesiásticas, incentivando ações pastorais quanto aos estudos dos textos bíblicos, exigindo-se cursos de Teologia nas universidades.
São João da Cruz pertenceu a uma geração que foi beneficiada pelas posturas surgidas após o Concílio de Trento (1545-1563), no que se refere principalmente, à dedicação aos estudos bíblicos. Este Concílio, defendia que o cristão deveria conhecer melhor a Bíblia. O Concílio de Trento foi o 19º concílio ecumênico da Igreja Católica. Foi convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade da fé e a disciplina eclesiástica, no contexto da Reforma da Igreja Católica e da reação à divisão então vivida na Europa consequência da Reforma Protestante, por esta razão é denominado também de Concílio da Contrarreforma. O Concílio foi realizado na cidade de Trento, no antigo Principado Episcopal de Trento, região do Tirol italiano reiteradamente atrasado e interrompido por divergências políticas ou religiosas. Foi um conselho de uma grande reforma, uma personificação dos ideais da Contrarreforma. Mais de 300 anos se passaram até ao Conselho Ecumênico seguinte.
Foram esforços no sentido de se pontuar princípios e modos que colaborassem com as relações sociais. Este contexto foi fértil no sentido de se refletir e organizar práticas pedagógicas que permitiram a valorização humana. Neste sentido, a ação educativa articulava-se com aos anseios da época, atendendo aos interesses políticos e religiosos. As demandas da igreja e da classe política matizavam-se com os interesses de se construir uma sociedade com disciplina para que fosse possível estabelecer-se um sistema de controle sobre as pessoas. (Cambi, 1999).
Havia um interesse explícito da Igreja quanto à formação social e cultural de seus membros e fiéis. Isto, fez com que a escola, revestisse-se, de alguma forma, de sua função social, pois ia ao encontro da nova concepção de homem, expectativa da própria Igreja com o novo objetivo de vida apostólica. Esta busca de formação, provocada pelas mudanças, estava alicerçada pela influência da concepção renascentista de individualidade, sustentada pela imagem objetivada da magnitude e da unicidade do homem, confirmando o movimento pendular da história humana entre a valorização da divindade e do indivíduo. (Manoel, 1998).
Foi com o Humanismo Renascentista que se solidificam, nos processos de formação, os objetivos de se ensinar o bem falar e o bem escrever, com vistas à imitação dos clássicos, tanto no que se refere à estética literária como na questão da retórica.
Os humanistas foram os precursores quanto à criação de técnicas de crítica textual e expressavam a necessária preocupação com a retórica, a gramática, a ortografia nas atividades pedagógicas. Preocupavam-se também quanto aos estudos da Filosofia e da História. Foram os humanistas que contribuíram para o estudo da cultura grega nas escolas secundárias e nas universidades, assim como o Latim que se estabeleceu como língua de se estudar e aprender. Os humanistas abordavam seus conteúdos de ensinamento em um gênero textual, se assim pudermos denominar, estruturados como tratados, ou como diálogos que tematizavam moral, dificuldades pedagógicas, política e religião.
Assim, os humanistas primavam pela abordagem religiosa e teológica e faziam críticas contundentes ao método escolástico. A Escolástica, foi uma linha de abordagem do conhecimento que se inicia no século IX e estende-se até ao fim do século XVI, ou seja, até ao fim da Idade Média, referia-se ao método de pensamento crítico dominante no ensino nas universidades medievais e europeias de cerca de 1100 a 1500. Nasceu nas escolas monásticas cristãs, cujas preocupações eram conciliar a fé cristã com a razão, principalmente, aos pensamentos instituídos pela filosofia grega. Alicerçava-se na dialética com o intuito de ampliar o conhecimento pelos caminhos da inferência, resolvendo, assim, as possíveis contradições, respondendo às exigências da fé, ensinada pela Igreja, considerada então como a guardiã dos valores espirituais e morais de toda a Cristandade. Os ataques ao método escolástico pelos humanistas eram pontuados pela insistência quanto à volta aos estudos dos clássicos cristãos, ou seja, a Bíblia e os Padres da Igreja. Neste contexto, verificam-se as relevantes obras de Santo Agostinho, considerado o mais completo. Esta relevância delineava-o como um excelente retórico de extrema cultura. Outro ponto importante é que Santo Agostinho utilizava o método alegórico para justificar os estudos dos poetas e prosistas romanos. O método alegórico, faz a aproximação dos textos bíblicos por analogia figurada, mostrando que o sentido literal da própria palavra é insuficiente para revelar o significado da verdade dos mistérios cristãos. Assim, por intermédio de alegorias, que nada mais são que metáforas, símbolos e mitos, acreditavam expressar de forma profunda a essência da doutrina cristã.
A Escola de Alexandria, foi sem dúvida, a maior representante da interpretação alegórica das Escrituras do Antigo Testamento. Seu sistema interpretativo, teve influência direta da filosofia grega, principalmente de dois filósofos muito importantes. O primeiro foi Heráclito (Éfeso, 540 a.C. – 475 a.C., datas aproximadas), que criou o conceito de huponóia, que expressa um sentido mais profundo e verdadeiro sobre o texto, um sentido que vai além das palavras. O segundo foi Platão (427 a.C. a 347 a.C., provavelmente), que formou um conceito de que o mundo em que vivemos é apenas uma representação do que existe no mundo perfeito das realidades imateriais, o mundo das ideias. O humanismo cristão, certamente, sedimentou-se nas ideias filosóficas gregas e suas tradições, tanto gregas quanto latinas, absorvidas pelos humanistas e teólogos de educação humanista dos séculos XV e XVI.
No século XVI, Erasmo de Roterdã foi um dos grandes nomes do humanismo renascentista, publicando obras de gênero pedagógico e literário, que foram relevantes para delinear a pedagogia moderna. Neste contexto, Erasmo de Roterdã publica Declamatio de pueris statim ac liberaliter instituendis - A precoce e liberal educação das crianças - publicada em 1529, ou 1530, que trazia suas posturas educacionais, pontuando a necessária ação pedagógica para atender, especificamente, a formação de crianças, quase que inexistente naquela época, desenvolvendo temas sobre etiqueta e boas-maneiras. Por meio de suas obras, Erasmo de Roterdã foi reconhecido como grande pedagogo. Contribuiu para a discussão, naquela época, sobre as formas de se aprender com a tradução e interpretações de autores clássicos da antiguidade.
Surge, então, um novo modo do homem relacionar-se com a natureza e com a religião, consolidando uma nova visão de homem, cujo sujeito passa a ser a medida de todas as coisas, tornando a aprendizagem e o ensino elementar meio eficaz quanto a aceitação das ideias humanistas (Arnaut de Toledo, 2004).
O Humanismo emerge renovando o modo tradicional de formação nas áreas educativa e pedagógica, favorecendo ao desenvolvimento humano quanto às novas habilidades intelectuais e capacidades para o exercício de diversas funções na sociedade emergente. (Manacorda, 1992).
No século XVI, na Espanha, os objetivos de reforma das Ordens Mendicantes contribuíram com as intenções da Igreja de formação popular, especialmente com a fundação de escolas, colégios, seminários e novas universidades, implementando, deste modo, “um sistema orgânico de instrução que se firma de maneira expansiva em escala mundial e lança os fundamentos da escola moderna, laica e estatal” (Cambi, 1999, p. 260).
Desta forma, a educação vivenciada neste contexto, buscava uma formação que trabalhasse instrução e educação, ou seja, uma educação literária humanística, que almejava à preparação da classe dirigente pública e na administração do Estado. Este viés educacional contribuiu de forma relevante para que a cultura da educação e costumes dos nobres fossem transformados. Quanto às demandas da educação das classes populares, na escola elementar de primeiras letras, eram garantir o acesso deste segmento social, principalmente para que pudessem ler a Bíblia e a vida dos santos e dos padres da Igreja.
As questões de ordem religiosa interferiam assertivamente na estrutura da sociedade e na mentalidade da vida espanhola, cujas influências foram determinantes nos rumos e expansão da educação elementar espanhola.
Na Espanha, foram feitas reformas profundas na educação religiosa, notadamente nos anos posteriores ao Concílio de Trento. Com base no Humanismo Cristão, as Ordens Religiosas Mendicantes desenvolveram um movimento de interiorização da religiosidade e da espiritualidade, pelo emprego de novas práticas pedagógicas, inspiradas nas ideias humanistas.
O envolvimento da espiritualidade carmelita com a vida em e para a comunidade enfatiza o momento de uma nova religiosidade, mais afeita às necessidades daquele momento, sobretudo pelo movimento de contrarreforma existente no interior da Igreja, intensificado entre os séculos XV e XVI. No itinerário místico de São João da Cruz, observa-se que a mudança do centro de gravidade na ordem econômica e social foi transferida do campo para a cidade; a antiga riqueza fundada sobre posses de terras foi superada pela riqueza urbana, mediante a circulação comercial de produtos e pessoas (Ubbink, et al, 1980). A vida em sociedade exigiu novos costumes, valores e hábitos, que foram sendo apropriados pela população na medida em que tinham acesso à leitura e à escrita.
As bases do Estado Moderno configuradas pelos Reis Católicos, Isabel I (1451-1504), rainha de Castela (1474-1504) e seu marido Fernando II (1452-1516), rei de Aragão (1479-1516), foram estabelecidas e a juventude espanhola encontrava-se extremamente motivada dedicando-se aos estudos. Os Reis Católicos valorizavam o movimento humanista e a elite espanhola empenhou-se profundamente quanto ao acesso à cultura: “Este despertar cultural afecta a literatura, estúdio de las lenguas, teología, política, economia y a la misma espiritualidad” (Andres, 1977, p 13). Mas o Humanismo, no que tange ao seu desenvolvimento na Espanha, no século XVI, não se restringiu apenas ao segmento literário e formal, pois sua influência motivou a busca pela verdade em várias áreas do conhecimento como Geografia, Astronomia, Filosofia, Teologia, Ascética e Pedagogia. Houve uma grande preocupação com a sistematização de métodos ou caminhos que facilitassem o desenvolvimento das ciências e da ascensão da alma a Deus.
O foco de interesse do Humanismo cristão foi a disputa para harmonizar graça e liberdade, lei e liberdade e o direito dos homens e da sociedade, volta ao estudo das fontes, ao cultivo das línguas e ao gosto literário, e à valorização do homem e de sua dignidade (Andres, 1977).
A descoberta de novas terras, as conquistas, explorações, o desbravar mares, a expansão do comércio marítimo, a instituição de empresas, a ânsia de saberes, de sistematizar métodos científicos e a conquista espiritual criaram uma forte demanda pela verdade:
El ambiente invita y casi obliga a una renovación crítica constante. Buscar tierras y rehacer mapas [...] ideas y rehacer sistemas, poner nombres a muchas cosas que no lo tenían en geografía, en ciência, en espiritualidad (ANDRES, 1977, p. 14).
Reinava um clima de busca incessante das fontes primárias para a formação dos teólogos; da verdade em diversos sistemas teológicos; de caminhos mais fidedignos para a união com Deus e principalmente para materializar o objetivo da cristianização da América com evangelização eficaz do povo cristão.
Nesse contexto, as questões antagônicas não mais procediam como a oposição entre oração e ciência, entre teologia escolástica e mística. Não mais se concebem diversos sistemas teológicos fechados, engessados. A teologia havia se reduzido a disputas entre conventos rivais. A geração humanista espanhola do século XVI superou esses conflitos, e começou a buscar a verdade mais livremente. Uma das características comuns do período em toda a Europa era a ânsia por uma nova espiritualidade, que se desenvolvia entre os religiosos, nobres e humanistas.
A primeira reação à propaganda Protestante ocorreu em 1521, na Espanha, com a manifestação escrita em uma carta datada em 11 de abril do mesmo ano, pelos governadores da Espanha ao Imperador Carlos V (1500-1558) na qual expunham que era uma dádiva servir aos propósitos da Igreja Católica e, assim, a nobreza espanhola e toda corte envolveram-se na causa do cristianismo evangélico de Erasmo de Roterdã, provocando uma reforma mais humanista e cultural, e muito menos comprometido se comparado com o movimento que ocorria nas Ordens Religiosas (Andres, 1977).
Os pontos comuns entre os religiosos e as ideias de Erasmo de Roterdã versavam sobre que não eram contrários ao intelectualismo, nem à experiência e valorização da dignidade humana, nem à aceitação da ideia medieval de progresso, da valorização da busca pela verdade, do estudo da história e das línguas como preparação básica para o futuro teólogo, da valorização da dignidade humana e do livre arbítrio. Acreditavam no ideal de perfeição dos homens e no desenvolvimento de um cristianismo interior e essencial, na liberdade para investigar, na liberdade política, nos direitos humanos e na harmonia entre liberdade e graça e entre liberdade e lei, acreditavam na possibilidade de equilíbrio entre teologia escolástica e mística, na busca do conhecimento de si mesmo e promoção da volta ao estudo dos clássicos latinos e gregos, em tudo que pudesse levar o homem a Deus por meio de seu itinerário místico.
[...] en torno a él gira todo y tiene en él su punto de partida: ciencia, gobierno de las ciudades, conquistas exploraciones, poder, riqueza” (DE MONTOYA, 1968, p. 10).
A valorização da vida terrena “[...] tiene ahora un valor sustantivo: es en ella donde es posible conquistar fama y honores” e o espírito de nacionalismo “[...] vibra en los protagonistas de lá historia de esta etapa cultural, el amor al terruño, desconocido en la medieval” (DE MONTOYA, 1968, p. 14).
O Humanismo ressalta os caminhos da história cultural, assim como o surgimento de um novo olhar antropológico, que salienta a individualidade e consequente subjetividade: “Es el hombre el que levanta casas y palacios para la vida refinada y muelle; el que construye las ciudades y las puebla con obras de arte, mármoles, torres estatuas, arcos de triunfo” (De Montoya, 1968, p. 11).
Isto posto, verifica-se grande valorização das escolas, pois as marcas humanísticas espargiram-se nos âmbitos educacionais presentes em grande maioria das cidades, principalmente influenciadas pela reforma das Ordens Religiosas (séculos XV e XVI) ocorrido na Espanha. “Es un ideal mundanal, cívico” (De Montoya, 1968, p. 18). No que se refere ao conteúdo, objetivava-se a formação física e social, principalmente quanto à questão estética:
Y la educación intelectual se centra en la búsqueda del ‘dolce stil nuovo’, la elocuencia y el poetizar [...]. Gramática, será ‘prima scienza pedagoge’, con el rol de introducir a la Elocuencia” (DE MONTOYA, 1968, p. 18).
Quanto à disciplina, almejava-se à uma educação mais liberal, minimizando-se os castigos corporais, tidos como inconcebíveis à liberdade humana e ao autossuficiente: “Prefieren el estimulo, la excitación del sentimiento del honor, el amor a la gloria” (De Montoya, 1968, p. 19).
O Humanismo Cristão alimenta a pedagogia humanística quanto à valorização de pontos essenciais para o desenvolvimento humano, estabelecendo: “a natureza (o bem), o método e o exercício (caracterizam-se pelos ensinamentos e preceitos e da disposição do aprendiz em exercer uma vida com base na natureza e no método apreendidos) ”. (Arnaut de Toledo, 2004, p. 92).
2. São João da Cruz, uma vida lapidada pelo sofrimento e pela determinação – cruzando caminhos de perfeição
São João da Cruz foi beatificado em 1675 por Clemente X, foi canonizado em dezembro de 1726, por Bento XIII e foi declarado Doutor da Igreja, em 1926, por Pio XI. É considerado um dos maiores místicos da Espanha. Tido como um modelo de alma que, viveu apenas, 49 anos. Uma vida curta, mas muito fértil. Viveu exclusivamente para se dedicar à tarefa de se imbuir plenamente da vida de Cristo. João da Cruz nasceu em 1542, chamado de João de Yepes. Sua vida tem um início muito sofrido, pois cresceu numa situação familiar bastante conturbada economicamente. Era filho de um nobre com uma moça de origem modesta, e por este motivo seu progenitor, Gonçalo de Yepes, um nobre muito rico de Toledo que se apaixonara por uma jovem conterrânea, Catarina Álvares, que era muito bonita, mas de família de origem muito modesta, uma tecelã. Isto era como um pecado social, na época. Os Yepes não poderiam aceitar que um de seus herdeiros casasse-se com uma moça sem nome, algo que fatalmente, desmereceria a linhagem familiar e principalmente os negócios da família. Assim, Gonçalo foi deserdado, pois preferiu dispor dos bens de sua ascendência a renunciar o amor de Catarina.
Gonçalo tornou-se um proletário, aprendendo a profissão da esposa, indo morar em Fontiveros, próximo a Ávila e Salamanca. O casal teve três filhos: Francisco, Luís e João, mas Gonçalo morreria logo. Pobre e sem quaisquer recursos, na pobreza, a mãe de João e seus irmãos foram a pé até Torrijos, visitar seu cunhado, que era auxiliar do bispo local, a fim de que este acolhesse os sobrinhos. Sua solicitação foi negada. Assim, a mãe de João da Cruz viajou em busca de trabalhos em outras cidades. As dificuldades eram imensas, não tinham como suprir as necessidades básicas. Um dos irmãos morreria logo de inanição. Pode-se constatar que as dificuldades da infância deixaram marcas indeléveis na compleição física de João da Cruz. Ele era baixinho, bem franzino e com semblante sofrido e austero. Certamente, essas marcas físicas bordaram sua alma com pontos positivos: era humilde, conhecedor da crueldade humana, forjando nele um espírito de sempre servir, desprezando-se, quase sempre. Fazia quaisquer serviços: enfermeiro (nas horas vagas, sem remuneração), alfaiate, marceneiro, carpinteiro, entalhador, pintor e foi cozinheiro no Colégio La Doutrina. Como acólito na igreja das monjas agostinianas, em Medina, seria abundantemente compensado pela dedicação e piedade com que desenvolvia seu ofício. Nas histórias desses caminhantes de caminhos estreitos sempre há eventos semelhantes e significativos como o abandono de vida abastada e fútil para busca, à semelhança de Cristo e sua paixão, viver a humildade e o sacrifício – como Santa Teresa, São Francisco de Assis; ou as fatalidades da vida que, aliadas a um espírito iluminado com determinação buscam a perfeição, Como São João da Cruz.
Dom Alonso Álvares de Toledo, um generoso fidalgo, sabendo da extrema dedicação de São João da Cruz aos serviços do altar, pois ele era um apaixonado pela sacristia, ofereceu-lhe para se tornar capelão do Hospital de Las Bubas, onde São João da Cruz estava há tempos ajudando, como enfermeiro, principalmente os doentes com sífilis.
Pode-se imaginar o ambiente desfavorável desse contexto para quem deseja concentração e recolhimento. São João da Cruz, tinha espírito que valorizava e ansiava a solidão e o silêncio, situações afeitas a um sacerdote secular. Seu espaço favorável, conclusivamente, seria um mosteiro.
Em 1563, apresentou-se ao convento do Carmo, recebendo o hábito com o nome de João de São Matias. No ano seguinte, foi estudar Filosofia e Teologia em Salamanca, considerado um dos maiores centros de estudo de toda a Europa naquela época. Lá, munido de seu ideal ascético-místico do Carmelo e de extrema inteligência, no propício ambiente universitário, São João da Cruz consegue estabelecer uma unidade entre vida e pensamento. O seu pensamento, ordenado e coerente, além de enraizado na experiência viva de uma alma de verdadeira oração, transpareceria na beleza de seus detalhes e na perfeita unidade de estrutura em suas obras.
Em 1567, aos vinte e cinco anos, São João da Cruz recebeu as sagradas ordens. Sua primeira missa aconteceu em Medina Del Campo. São João da Cruz não se sentia bem ali, faltava-lhe algo. Afiliara-se a uma Ordem que não lhe oferecia o recolhimento almejado, nem os procedimentos de penitência que Cristo planta no coração de quem d'Ele se encanta. Não havia a vivência da obediência primitiva e rígida de S. Alberto de Jerusalém - cônego regular, bispo e patriarca Latino de Jerusalém, nomeado em 1205 e que ajudou na fundação da Ordem dos Carmelitas, no ano de 1209 – em pleno desuso quando de seu ingresso no Carmelo, pôde aquietá-lo. Pensou, portanto, tornar-se Cartuxo - ordem religiosa católica semieremítica de clausura monástica e de orientação puramente contemplativa, surgida no século XI.
É neste momento da vida de São João da Cruz que ele se encontra com Santa Teresa D’Ávila. Momento de extrema importância para reflexões quanto ao desenvolvimento da ciência, da fé, do autoconhecimento e relevantes ensinamentos desses dois místicos.
Os séculos XVI e XVII foram marcados como os períodos de ascensão e consolidação do culto às ciências e filosofia modernas. Como exemplos deste contexto podemos pontuar as obras de Galileu Galilei, Hume, Kepler e Descartes. Ao mesmo tempo na Espanha, desenvolvia-se um fenômeno marcadamente intrigante e surpreendente no que se refere à intelectualidade: experiências místicas que radicalmente instigariam reflexões e mudanças na vida religiosa de algumas ordens religiosas. O fenômeno articula-se nas formas de oração como caminhos para uma relação com Deus, ou seja, a denominada mística católica.
Santa Teresa D’Ávila e São João da Cruz são considerados os principais representantes da mística católica espanhola. Além do valor literário de suas obras, ambos são considerados como grandes místicos da igreja. Esta mística pontuava a incessante busca do autoconhecimento cujo caminho perpassava o cultivo das virtudes. Ambos trazem exemplos em suas obras dessa imersão interior por meio da autorreflexão para a conquista da comunhão com o Deus. Percebe-se que essa trajetória descortina a mística e todo o mistério que envolve a paixão de Cristo – emblemática imagem do Cristo Crucificado, símbolo irradiador de momentos sublimes de oração. Além da riqueza no que tange à religião, é inegável o valor literário, principalmente poético, além da riqueza quanto aos valores intelectuais expressos que favorecem ao entendimento de aspectos relevantes para se compreender a então modernidade.
Isto posto, podemos refletir sobre a tendência de se vincular o racionalismo científico à laicização e à secularização - declínio da importância da religião - aos valores da modernidade, mas com os escritos da mística de Santa Teresa D’Ávila e São João da Cruz pode-se verificar um outro ponto de vista no que se refere a formas não convencionais de conhecimento como a busca da compreensão do divino e do próprio homem. Pode-se constatar que a escritura de Santa Teresa D’Ávila e São João da Cruz iluminam as reflexões atinentes às ciências humanas. São João da Cruz adverte:
Ora, importa saber que, não obstante poderem ser obras de Deus os efeitos extraordinários que se produzem nos sentidos corporais, é necessário que as almas não queiram admitir nem ter segurança neles; antes é preciso fugir inteiramente de tais coisas, sem querer examinar se são boas ou más. Porque quanto mais exteriores e corporais, menos certo é que são de Deus. Com efeito, é mais próprio de Deus comunicar-se ao espírito, e nisto há para a alma mais segurança e lucro, do que ao sentido, fonte de frequentes erros e numerosos perigos. O sentido corporal, nessas circunstâncias, faz-se juiz e apreciador das graças espirituais julgando-as tais como sente. No entanto, há tanta diferença entre a sensibilidade e a razão como entre o corpo e a alma, e na realidade, o sentido corporal é tão ignorante das coisas espirituais como um jumento o é das coisas racionais, e mais ainda. (DA CRUZ,1998. Subida ao Monte Carmelo, p. 217)
3. São João da Cruz, Doutor Místico da Igreja - escrevia para ensinar
Na produção escrita de São João da Cruz, tanto na poesia quanto nos escritos de doutrina, há uma intenção didática. Ele prima quanto à linguagem para refletir sobre seus próprios textos poéticos. Percebe-se, em seus escritos, o objetivo claro e intencional de ensinar. Sua produção apresenta recorrentes tons de vivências para que seu leitor o compreenda, pois, didaticamente, ele almeja a renovação de se viver como espelho de Cristo e transformação da vida interior. Há preceitos pela reforma da educação religiosa, com base em práticas pedagógicas estruturadas na visão Humanista cristã, forjando, ainda que de forma incipiente, o nascimento de uma educação de caráter mais utilitário (Weber,2004)
Em 1926, São João da Cruz foi declarado Doutor Místico da Igreja Católica, e seus textos, aqueles que expressam conteúdos místicos, são verdadeiros tratados doutrinais.
Quem estima esses efeitos extraordinários erra muito, e corre grande perigo de ser enganado, ou, ao menos, terá em si total obstáculo para ir ao que é espiritual. Como já dissemos, os objetos corporais nenhuma proporção tem com os espirituais, por isso, deve-se sempre pensar que, nos primeiros, mais se encontra a ação do mau espírito em lugar da ação divina. O demônio, possuindo mais domínio sobre as coisas corporais e exteriores, pode, com maior facilidade, nos enganar, neste ponto do que nos interiores e espirituais. (DA CRUZ. Subida ao Monte Carmelo. Livro II, capítulo XI, 1998, p. 217)
Na tradição ocidental do século XVI e no contexto da mística espanhola católica, a obra de São João da Cruz é avaliada como uma das mais importantes linhas poéticas e de literatura na modernidade. Há uma mescla entre a expressão poética e a mística em seus textos, por esta razão é reconhecido como um dos poetas mais líricos do século XVI na literatura espanhola. (Prant, 1943).
As impressões sensíveis são de natureza a produzir erro, presunção e vaidade; porque sendo tão palpáveis e materiais, movem muito os sentidos. A alma levada por essas impressões sensíveis, dá-lhe grande importância, abandonando a luz da fé para seguir essa falsa luz que então parece a seus olhos o meio para levá-la ao objetivo de suas aspirações, isto é, a união divina; entretanto, quanto mais se interessar por estas coisas, mais se afastará do caminho e se privará do meio por excelência que é a fé. A alma, além disso, vendo-se favorecida por graças tão extraordinárias, muitas vezes concebe secretamente boa opinião de si, imaginando já valer, algo diante de Deus, o que é contrário à humildade. Por outro lado, o demônio sabe sugerir-lhe oculta satisfação de si mesma, por vezes bem manifesta. Com este fim propõe-lhe frequentemente objetos sobrenaturais aos sentidos, oferecendo à vista imagens e maravilhosos resplendores; aos ouvidos, palavras misteriosas; ao olfato, perfumes muito suaves; ao paladar, delicadas doçuras, e ao tato sensações deleitosas, para que atraída a alma com estes gostos, possa ele causar-lhe muitos males. (D Cruz. Subida ao Monte Carmelo. Livro II, capítulo XI, 4-5.1998, p. 218)
A composição enigmática, misteriosa e profunda de seus poemas, fez com que a sua prosa se destinasse à explicação de suas próprias obras poéticas, sendo consideradas a mais alta expressão do misticismo espanhol. (Sciadini, 1989; Stinissen, 2001).
São João da Cruz é quem resume toda a sua tese em propor que o homem deixe de ser carnal e se torne espiritual, e que de humano se transforme em divino. O citado poema Subida ao Monte Carmelo de São João da Cruz narra a jornada da alma desde o início de busca até a união com Deus. A jornada, o caminho estreito, a noite sem luz, buscando perfeição, assim como Santa Teresa D’Ávila, é chamada de Noite Escura, tendo a escuridão como um obstáculo, como dificuldades da alma em desapegar-se do mundo e atingir a luz da união com o Criador. Todo esse processo é obra de Deus que viabiliza ao homem no contexto oracional, na metáfora do crisol, esse recipiente utilizado para experiências químicas em que se têm de misturar ou fundir substâncias, metais, o cadinho, metáfora para ambientação com circunstâncias apropriadas para depuração, evidenciando as melhores qualidades de algo ou alguém. Da oração contemplativa, que São João da Cruz designa com o símbolo que criou de maneira feliz para ela: Noite Escura. “A noite escura nada mais é do que o crisol do amor. A alma submergida nele vai deixando tudo o que lhe sobra e revestindo-se do que lhe falta, como esposa preparada para suas núpcias com o Rei.
Noite escura, em São João da Cruz relaciona-se com sua experiência formativa. No período de 1568 a 1570, seus superiores observaram a personalidade singular do jovem: era austero, preferia a oração noturna e era dedicado e muito assíduo nos estudos.
No Colégio San Andrés, leu e estudou muito sobre os místicos. Leu As Moralia, de São Gregório Magno, as obras místicas do Pseudo Dionísio: Hierarquia Celeste, Hierarquia Eclesiástica, Nomes Divinos e Teologia Mística (Sesé, 1995).
Assim como Santa Teresa D’Ávila, São João da Cruz também era incomodado quanto ao comportamento frívolo de alguns membros da ordem carmelita que se acostumaram a uma vida de prazer, de gozo e consolo com coisas efêmeras e materiais. Repudiava esses hábitos e enaltecia, veementemente, a obediência, a pobreza e a castidade. Pregava a vivência radical quanto aos preceitos do Evangelho. Agia sempre buscando ser humilde, penitente, obedecendo às regras, era disciplinado e contemplativo espiritual, e primava pela prática das virtudes.
Quando nos aprofundamos nas reflexões das obras e fatos da vida de São João da Cruz constatamos que, tanto ele quanto Santa Teresa D’Ávila são imbuídos de uma postura pedagógica e didática advinda da grande preocupação e angústias de ambos com a formação de frades e freiras, os primeiros Carmelitas Descalços. Isto ressalta o porquê ambos serem Doutores da Igreja.
A experiência mística de São João da Cruz atraía a atenção e o interesse dos iniciantes no Carmelo, sendo ele o responsável pelas atividades de formação dos irmãos carmelitas. (Sesé, 1995, Stinissen, 2001).
Nos textos místicos de São João da Cruz podemos depreender relevante aprofundamento psicológico, principalmente quando descreve os passos do itinerário espiritual vivenciado nos momentos de oração nas noites de união com Deus. Ele narra os processos exigidos para interiorização movidos pela fé e religiosidade. Santa Teresa D’Ávila assim também o fez em Caminhos de Perfeição.
A espiritualidade descrita aguça os sentidos, emancipando o espírito por meio da arguta inteligência, da força de vontade incomensurável e da memória.
Na visão de São João da Cruz, assim como na visão de Santa Teresa D’Ávila a busca de satisfação sem limites das demandas dos sentidos, compromete, negativamente, a inter-relação pessoal e a relação consigo mesmo. O domínio por meio da educação dos sentidos humanos abre caminhos para se alcançar a liberdade, possibilitando a ação consciente do homem sobre si e sobre o mundo.
São João da Cruz expressa que a purgação das vontades não tem um fim próprio. Essas atitudes constituem condição necessária para a alçar estágios mais elevados do espírito, que se dirige ao amor, à verdade e à luz de Deus.
O exercício das virtudes apontadas pela teologia como a fé, a esperança e a caridade, segundo São João da Cruz, purificam o espírito. Unir-se com Deus pressupõe uma intensa vida de fé, cujo amor a Deus exige a não satisfação das motivações humanas. O trabalho pedagógico da noite mística purifica os sentidos e o espírito para canalizar as forças psíquicas no esforço de união com Deus. Essa foi uma das principais características da espiritualidade espanhola no século XVI, uma vez que a interiorização da fé e da religiosidade envolve o homem em si mesmo na busca de Deus, pela renúncia da satisfação, sem limites, de suas motivações (Da Cruz, 2002).
Compreende-se que João da Cruz não se ocupava do conhecimento da natureza da alma; buscava apreender as vivências imediatas, com base na experiência cotidiana e pela riqueza advinda do contato com os demais:
No es la razón la que pone en contacto más estrecho con la última verdad, sino la experiencia amorosa, por la cual el hombre se transforma en Dios, que es la última verdad” (Andres, 1977, p. 167).
São João da Cruz logo se fez notar pelas suas qualidades intelectuais e, particularmente, pela sua qualidade de formador e de diretor espiritual de sua comunidade.
Na leitura dos poemas de São João da Cruz, verifica-se uma relevante preocupação didática, pois propõe, pedagogicamente, a sua experiência mística que visa ao encontro com o sagrado, salientando os meios necessários para aprendizagem do conhecimento místico. Para todos aqueles que buscam a vivência mística tanto Subida do Monte Carmelo quanto Noite Escura expressam o testemunho e a forma de agir de São João da Cruz propondo etapas de como se conquista o encontro pleno com Deus.
Os textos de São da Cruz expressam os procedimentos necessários pelos quais o corpo e seus sentidos deveriam ser disciplinados para se conquistar o transcendente estado de sabedoria e inteligência essenciais ao caminho religioso de dedicação a Deus.
Para São João da Cruz, o respeito aos princípios da Ordem, ou seja, a disciplina quanto aos estudos, buscando conhecimento, a mortificação, o estar só, a cotidiana oração e os estágios de contemplação são condições para que o corpo e seus sentidos sejam treinados para a oração que eleva o corpo para além de seus limites, objetivando a aproximação com o sagrado. A busca do conhecimento, concomitante com a oração, era uma constante na vida de São João da Cruz.
Para São João da Cruz a Subida do Monte Carmelo seria a primeira etapa na qual o religioso teria a responsabilidade de negar os prazeres da vida como uma preparação necessária à vida religiosa, único caminho possível de encontro com Deus. Entendia que a purificação ativa dos sentidos era a maneira pela qual o religioso, em razão dos prazeres internos e externos, não causaria danos a si mesmo, como: privação do espírito de Deus, cansaço e fadiga, tormento, escuridão e cegueira, impureza e enfraquecimento na virtude.
Para a alma livrar-se de suas imperfeições ela deveria ser mortificada de todos os prazeres, por mais mínimos que sejam. Nesse projeto, para alcançar a purificação seria preciso passar pela noite dos sentidos que, segundo ele, ocorreria pela purificação ativa do entendimento, da memória e da vontade. Essas virtudes seriam essenciais para todos aqueles que procuravam o Absoluto. Por meio delas seria possível romper a imperfeição humana.
A Noite Escura seria exatamente uma ruptura que levaria a um estado de crise necessário ao crescimento, assim, no mais íntimo da vida interior, a inteligência cederia ao forte apelo à compreensão para dar lugar à fé, a única que seria capaz de eliminar o entendimento do conhecimento do mundo. “[...] João da Cruz não hesita em dizer que a união com Deus acontece somente através de uma intensa vida de fé. [...]” (Sciadini, 1989, p. 29).
No livro Noite Escura São João da Cruz vai dizer que seria necessário passar pela noite passiva do espírito para chegar a Deus. Para ele “Esta noite escura é um influxo de Deus na alma, que a purifica de suas ignorâncias e imperfeições habituais, tanto naturais como espirituais [...]” (Da Cruz, 2002, p. 493). Isso quer dizer que a purificação da alma só poderia acontecer com a purificação do espírito, isto é, não bastava eliminar as imperfeições do sentido, era necessário um esvaziamento espiritual.
Neste ponto, cabe esclarecer, o que é a alma e o espírito para São João da Cruz e Santa Teresa D’Ávila: Dessa forma, entendia que todas as impurezas humanas são originárias do espírito, por isso “[...] enquanto este não é purificado, as revoltas e desmandos do sentido não o podem ser suficientemente” (Da Cruz, 2002, p. 491). A noite passiva do espírito pode ser entendida de duas maneiras: o moral e o ontológico. O aspecto moral quer dizer que Deus é santo incontestável, na medida em que a luz Divina penetra o espírito humano e este passa a perceber e a se convencer do pecado. Com relação a esse aspecto, São João da Cruz diz que:
Na escada, os mesmos degraus servem para subir e descer. Assim também, nesta secreta contemplação, as mesmas comunicações por ela feitas à alma, ao passo que a elevam em Deus, humilham-na em si mesma [...]. (Da Cruz, 2002, p. 543).
João da Cruz quer mostrar, dessa maneira, que não é a ausência de Deus que nos leva ao sofrimento, mas sim, a presença divina no homem:
(...) como é muito clara e pura a luz e sabedoria desta contemplação, e a alma, por ela investida, está tenebrosa e impura, sente muito sofrimento ao receber essa luz” (Da Cruz, 2002, p. 495).
Com relação ao entendimento pelo viés ontológico, este quer dizer que Deus é grande demais em relação ao homem. Quando a luz divina penetra o espírito humano “[...] Tudo se torna apertado para a alma em tal estado; não cabe em si mesma, não cabe no céu nem na terra [...]” (Da Cruz, 2002, p. 522), porém, para São João da Cruz, como para todos os místicos, a alma humana carrega em si a infinitude divina. Contudo, mantendo as potências humanas passivas e silenciosas, a divindade produz notáveis efeitos no espírito humano, dessa forma:
[...] convém seja a alma posta em vazio, pobreza e desamparo de todas as partes, e deixada seca, vazia, e em trevas. A parte sensitiva é, pois, purificada na secura; as potências, no vazio de suas apreensões, e o espírito, em escura treva” (Da Cruz, 2002, p. 499).
Os tratados místicos de João da Cruz apresentam essa ascensão progressiva espiritual para Deus. Segundo ele, a purificar os sentidos, negando os desejos e a purificação do espírito pela mortificação do entendimento pela fé, da memória pela esperança e da vontade pela caridade é necessária para chegar à união com Deus. As etapas de progressão espiritual para Deus, que caracterizam o itinerário místico de São João da Cruz, apresentam um método pedagógico relevante e muito interessante.
Essa parece ser uma das maiores contribuições dos escritos místicos de João da Cruz, em particular quando elaborou as obras Subida do Monte Carmelo, escrita entre os últimos meses de novembro de 1578 a junho de 1579, e Noite Escura, escrita entre os últimos meses de 1585 e os primeiros de 1586, já que as duas obras representam para o místico espanhol as etapas da formação espiritual dos conventos em seu itinerário místico de união com Deus, notadamente no que se refere à formação elementar. Os escritos místicos, por exemplo, não eram somente instrumentos de formação dos religiosos; por meio deles ensinavam-se, também, as primeiras letras às populações urbanas vindas do campo sem formação básica, sobretudo às crianças, como já mencionado. (Da Cruz, 2002).
O valor da mística espanhola no século XVI consistia em seu realismo psicológico, vivencial, de valorização da dignidade humana e da descrição da experiência do homem pela imitação de Cristo. A mística de João da Cruz não se caracterizou somente como um tratado da doutrina ou um manual instrucional; a sua experiência mística desenvolveu-se dentro de uma realidade de vida, ou seja, não era suficiente, para ele, ter conhecimento, mas vivenciá-lo.
São João da Cruz defendia a necessidade de se caminhar ordenadamente na vida espiritual pela meditação, oração e contemplação. E, também, pela dedicação aos estudos. Desse modo, um dos elementos mais significativos dessa pedagogia refere-se ao seu caráter afetivo, trabalhar, convertendo e transformando aquele que ama pela fé. Sua própria natureza é um dom livre, que se esforça sem ser obrigado; em todo lugar que esteja leva consigo a vontade daquele que ama; a transformação do amante na pessoa amada não é um ato de obrigação, mas livre e voluntário; e, assim, o amor pode transformar qualquer coisa que se deseje. Como exemplo dessa pedagogia podemos refletir sobre os versículos que detalham o modo de se ascender e os verdadeiros caminhos. Caminhos despojado das coisas do mundo. Interessante que quanto a isso, com o intuito de que entendessem claramente o que queria dizer, desenhou um gráfico, ao qual chamou de “Monte da Perfeição” (O.C. São João da Cruz. pp 85,86). Para subir esse monte não se deveria buscar os bens da terra, e, pasmem, nem do céu, mas apenas querer em tudo a glória e honra de Deus:
Monte Carmelo
(No sopé do Monte)
Para vir a saborear TUDO - Não queiras ter gosto em NADA.
Para vir a saber TUDO – não queiras saber algo em NADA
Para vir a possuir TUDO - Não queiras possuir algo em NADA
Para vir a ser tudo - Não queiras ser algo em NADA
Pra vir ao que não GOSTAS – hás de ir por onde não GOSTAS
Para vir ao que não SABES – hás de ir por onde não SABES
Para vir a possuir o que não POSSUIS – hás de ir por onde não possuis que não POSSUIS,
Para chegar ao que não ÉS- hás de ir por onde não ÉS.
Quando reparas em algo - deixas de arrojar-te ao tudo.
Para vir de todo ao tudo - Hás de deixa-te de todo em tudo.
E quando venhas de todo a ter - hás de tê-lo sem nada querer.
Porque se queres ter alguma coisa em tudo
Não tens puramente em Deus teu tesouro.
Nesta desnudez encontra o espírito o seu descanso, pois nada cobiçando, nada o impele para cima e nada o oprime para baixo, porque está no centro da sua humildade. (O.C. São João da Cruz. pp 84 e 87).
REFERÊNCIAS
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AUCLAIR, Marcelle. Teresa de Ávila. (Tradução de Rafael Stanziona de Moraes). São Paulo: Quadrante, 1995.
CAMBI, Franco. História da pedagogia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU), 1999.
DA CRUZ, João. Subida ao Monte Carmelo. Rio de Janeiro: Vozes, 1998
DI BERARDINO, Pedro P. São João da Cruz - Doutor do "Tudo ou Nada" Editora: Paulus.
______________. Itinerário Espiritual de São João da Cruz. Editora: Paulus. ___________. Itinerário Espiritual de Santa Teresa de Ávila. Editora: Paulus.
KRISTELLER, Paul Oskar. El Pensamiento renacentista y sus fuentes. 2. ed. Trad. Federico P. Lopes. Madrid: Fondo de Cultura Económica, 1993.
MANACORDA, Mario Alighiero. História da educação: da antiguidade aos nossos dias. 3. ed. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1992
MANOEL, Ivan A O Pêndulo da História. Franca: FHDSS.1998 (Livre Docência)
SCIADINI, Patrício o.c.d., Mestre João da Cruz. São Paulo: Editora Cidade Nova, 1986.
____________. (Org. Geral). Obras Completas. Petrópolis: Vozes, 3ª ed - em co-edição com Carmelo Descalço do Brasil, 1991
______________São João da Cruz: Obras Completas. 7.ª ed., São Paulo: Vozes, 2002
PRAT, Angel Valbuena. La vida española en la edad de oro: según sus fuentes literarias. Barcelona: Alberto Martín, 1943.
SESÉ, Bernard. João da Cruz: pequena biografia. São Paulo: Paulinas, 1995.
SGARBOSA, Mario. Os santos e os beatos da Igreja do Ocidente e do OrienteTradução de Armando Braio Ara. – São Paulo: Paulinas, 2003.
VERGER, Jacques. Homens e saber na Idade Média. Bauru: EDUSC, 1999.
Ordens Mendicantes in Artigos de apoio Infopédia Porto: Porto Editora, 2003-2016. Acesso em -11-21-2016.
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