Chiquinha Gonzaga - a mulher que revolucionou a história do seu tempo por meio da música

Chiquinha Gonzaga - a mulher que revolucionou a história do seu tempo por meio da música
Profª Ms Stela Maris Leite Carrinho de Araújo
Fatea - Lorena

            Pensem em uma mulher que viveu cinquenta anos no século XIX e trinta e cinco anos no século XX. Quanto das vertiginosas transformações desse período não influenciaram a personalidade forte e determinada dessa musicista brasileira? Esta mulher era filha de José Basileu Gonzaga, um general do Exército Imperial Brasileiro e de Rosa Maria Neves de Lima, uma negra muito humilde. Era Francisca Edwiges Neves Gonzaga.
            Livre, este é o adjetivo que qualifica esta mulher, que apesar do meio em que viveu e as pressões que sofreu pode ser considerada uma mulher que buscou, incessantemente a liberdade.         Que tempo era este de Chiquinha Gonzaga? Durante a segunda metade do século XIX, a sociedade brasileira passou por mudanças fundamentais nos campos políticos, sociais e consequentemente na forma de ver e entender a nova realidade que se vivia. Foi nesse período que mudou a forma de governo, foi feita a Constituição, iniciou-se a substituição do trabalho escravo pelo trabalho assalariado e as fazendas de café e outras lavouras brasileiras modernizaram-se. As cidades cresceram e nelas as primeiras indústrias instalaram-se. Para se ter ideia dessas mudanças sabemos que entre 1850 e 1860 ocorreu o que podemos chamar de surto industrial no Brasil, pois foram inauguradas 70 fábricas. Produziam chapéus, sabão, tecidos de algodão e cerveja, artigos que até então vinham do exterior. Além disso, foram fundados 14 bancos, três caixas econômicas, 20 companhias de navegação a vapor, 23 companhias de seguro, oito estradas de ferro. Criaram-se, ainda, empresas de mineração, transporte urbano, gás etc..
            Os colonos, espremidos pelo latifúndio, se deslocavam para a cidade à procura de uma vida melhor, mais confortável, financeiramente.
            Chiquinha Gonzaga foi educada numa família de pretensões aristocráticas, que gravitava nos espaços de poder. Seu padrinho era Luís Alves de Lima e Silva, o conhecido Duque de Caxias. Ela conviveu bastante com a rígida família do seu pai. Fez seus estudos com o cônego Trindade, um dos melhores professores da época, e estudou música com o Maestro Lobo. Em contraponto, frequentava rodas de lundu, umbigada, e outros ritmos oriundos da África, pois nesses encontros buscava sua identificação musical com os ritmos populares, que vinham das rodas dos escravos. Éssa atitude era recriminada e constantemente reprimida.
            Neste contexto, surgiram as primeiras grandes greves, pois o operariado, cujas condições de trabalho eram precárias e bastante injustas, tenta desenvolver uma ação política independente, de oposição, por meio das greves.
            O Rio de Janeiro, onde Chiquinha Gonzaga nasceu, era uma cidade heterogênea, com mansões e palacetes ao lado de bairros miseráveis. Na rua do Ouvidor podiam encontrar-se as últimas novidades de Paris, mas a febre amarela e a varíola, periodicamente, dizimavam a população pobre. Uma aristocracia culta e exigente povoava os salões e os espetáculos de ópera, enquanto o desemprego fadava milhares de pessoas a uma vida irregular de trabalhos avulsos e insignificantes, quando não ao meretrício e à confortável malandragem. Nos palacetes de Laranjeiras falava-se francês, nas noites de gala, enquanto não longe dali, nos cortiços, a fome e a miséria faziam estragos na população.
            Chiquinha Gonzaga transitava entre estes dois contextos. Foi a primeira chorona brasileira.  O choro, como estilo musical, pode ser considerado como a primeira música urbana tipicamente brasileira. Os primeiros conjuntos de choro surgiram por volta de 1880, no Rio de Janeiro, nascidos nos botecos do bairro Cidade Nova e nos quintais dos subúrbios cariocas. Esse tipo de música também era conhecido, na época como pau-e-corda, porque as flautas usadas naquele tempo, eram feitas de ébano e havia o cavaquinho. O choro foi o recurso que o músico popular utilizou para tocar, do seu jeito, a música importada que era consumida, a partir da metade do século 19, nos salões e bailes da alta sociedade. A música que os chorões tocavam, porém, logo se distinguiu, em muito, daquelas tocadas nos nobres salões cariocas. Chiquinha Gonzaga foi a primeira pianista de choro, autora da primeira marcha carnavalesca com letra Ó Abre Alas, 1899, e também a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil.
            A necessidade de adaptar o som do piano ao gosto popular valeu a glória de tornar-se a primeira compositora popular do Brasil. O sucesso começou em 1877, com a polca Atraente. A partir da repercussão de sua primeira composição impressa, resolveu lançar-se no teatro de variedades e revista. Estreou, compondo a trilha da opereta de costumes A Corte na Roça, de 1885. Em 1911, estreia seu maior sucesso no teatro: a opereta Forrobodó, que chegou a 1500 apresentações seguidas, após a estreia - até hoje o maior desempenho de uma peça deste gênero no Brasil. Foi criadora da célebre partitura da opereta Juriti de Viriato Corrêa. Por volta de 1900, conhece a irreverente artista Nair de Teffé, a primeira caricaturista mulher do mundo, uma moça boêmia, apesar de pertencer a uma família nobre da qual Chiquinha se torna grande amiga. Viaja pela Europa entre 1902 e 1910, tornando-se especialmente conhecida em Portugal, onde escreve músicas para diversos autores. Logo após o seu retorno do continente europeu, sua amiga Nair de Teffé casa-se com o então presidente da República, Hermes da Fonseca, tornando-se primeira-dama do Brasil.
Na manhã de sol do dia 26 de outubro de 1914 nos jardins do Palácio do Catete, o rebuliço era enorme. Pessoas corriam de um lado para outro. A festa que se anunciava seria como uma despedida do presidente. A primeira dama, Nair de Teffé, havia se esmerado e queria fechar com chave de ouro sua passagem pelo Catete, desanuviando o ambiente já tenso, por conta de eleições próximas. No entanto, havia mais alguma coisa na cabeça da primeira-dama. Chateada de assistir às cerimônias oficiais que não mostravam a cultura brasileira, preparou uma surpresa que deu o que falar, tornando-se um escândalo nacional. Convocou o compositor Catulo da Paixão Cearense para acompanhá-la, com seu violão, na apresentação da música que ela considerava a mais brasileira, o maxixe Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga. Juntavam-se na surpresa duas coisas explosivas para uma recepção diplomática: o violão, instrumento da malandragem; e o maxixe, ritmo popular considerado sensual. A repercussão foi terrível, e fez com que Rui Barbosa registrasse no diário do Congresso Nacional um violento pronunciamento: “Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o Corta-Jaca à altura de uma instituição social. Mas o Corta-Jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o Corta-Jaca é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria?” Misto de crítica moral e política, o pronunciamento incorporava as brigas políticas da época e abria caminho para mais uma história de presidentes.  (Cf. ELIAS, 2011).
            Chiquinha participou ativamente da campanha abolicionista, por conta da revolta que sentia por seus ancestrais maternos terem sido escravos e sofrido muito, e da Proclamação da República do Brasil. Também foi a fundadora da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Ao todo, compôs músicas para setenta e sete peças teatrais, tendo sido autora de cerca de duas mil composições em gêneros variados:valsas, polcas, tangos, lundus, maxixes, fados, quadrilhas, mazurcas, choros e serenatas.
            No Passeio Público do Rio de Janeiro, há uma ermida em sua homenagem, obra do escultor Honório Peçanha. Em maio de 2012, foi sancionada a Lei 12.624 que instituiu o Dia Nacional da Música Popular Brasileira, a ser comemorado no dia de seu aniversário.
            Aos 11 anos iniciou sua carreira de compositora com uma canção natalina, Canção dos Pastores. Casada aos 16 anos, por impossição da família paterna, com Jacinto Ribeiro do Amaral, oficial da Marinha Imperial, separou-se após anos de casada, um escândalo, na época.
            A personalidade forte de Chiquinha não a impediu de anos depois, em 1867, reencontrar um amor do passado, o engenheiro João Batista de Carvalho, com quem viveu muitos anos. Separou-se, por não aceitar as traições do marido. Separada dos filhos, apesar de tudo, Chiquinha foi muito presente na vida de seus quatro filhos, criando, apenas, um deles. Chiquinha, então, viveu como musicista independente, tocando piano em lojas de instrumentos musicais. Sustentava o filho dando aulas de piano e sofria preconceito por criar seu filho sozinha.  Foi aos 52 anos, que conheceu João Batista Fernandes Lage, um jovem  de 16 anos, cheio de vida e talentoso aprendiz da música, por quem se apaixonou. A diferença de idade entre os dois era grande. Temendo o preconceito, fingiu adotá-lo como filho, para viver um grande amor. Assim, evitaria escândalos e mais preconceitos com relação a seus filhos. Por tudo isso resolveu ir embora do Brasil. Chiquinha e João Batista Lage, ou Joãozinho, como o chamava, mudaram-se para Lisboa. Os filhos de Chiquinha, no começo, não aceitaram o romance da mãe, mas depois viram-no com naturalidade. Fernandes Lage aprendeu muito com Chiquinha sobre a música e a vida. Retornaram ao Brasil sem levantar suspeita nenhuma de viverem como marido e mulher. Chiquinha nunca assumiu de fato seu romance, que só foi descoberto após sua morte através de cartas e fotos do casal. Morreu ao lado de João Batista Lage, seu grande amigo, parceiro e fiel companheiro, seu grande amor. Era carnaval, 28 de fevereiro de 1935

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